Inteligência artificial, prudência humana

Bertrand Russell associava a prudência à capacidade de suportar desconfortos presentes em nome de benefícios futuros. A ideia é considerar o que vem depois, em vez de apenas obedecer ao impulso.

Parece uma boa ideia. Até alguém anunciar uma ferramenta que produz trinta publicações antes de o café esfriar. E a sensação estranha de que, nesse momento, pensar nas consequências começa a parecer falta de agilidade.

Na comunicação pública, proponho uma pergunta anterior ao entusiasmo: queremos usar inteligência artificial para nos comunicar melhor ou para aumentar a velocidade com que ocupamos o tempo dos outros?

Quando o excesso vira rotina produtiva

A internet precisou surgir para que pudéssemos desenvolver compulsões em torno dela. Mas me inquieta a facilidade com que podemos transformar o excesso em normalidade. Quando estar permanentemente conectado vira expectativa, quem estabelece limites passa a parecer esquisito. O problema não precisa desaparecer para deixar de nos incomodar. Basta receber o nome de “rotina produtiva”.

Meu receio é repetirmos esse movimento com a IA: primeiro, o espanto; depois, o uso indiscriminado; finalmente, a desconfiança diante de quem ainda insiste em fazer alguma coisa sem ela – inclusive pensar.

Produzir mais não é comunicar melhor

Imagine uma equipe que passa a produzir dez vezes mais conteúdo, mas continua sem compreender as dúvidas das pessoas. Agora imagine essa mesma equipe usando o tempo economizado para ouvir cidadãos, revisar informações e testar se uma orientação realmente ajuda alguém a acessar um serviço.

Nos dois casos, há tecnologia. Só em um deles consigo enxergar uma boa razão para comemorar.

Não escrevo isso para defender o sofrimento artesanal de quem precisa passar a tarde ajustando uma legenda. Economizar trabalho é desejável. Transformar toda economia de tempo em obrigação de produzir mais é uma escolha de gestão, não uma exigência da inovação.

Se a instituição publica mais, mas a pessoa continua sem saber quais documentos levar, onde buscar atendimento ou como acompanhar uma solicitação, o que exatamente melhorou? Ser mais produtivo, não resolve uma das questões centrais das instituições públicas, a confiança.

Talvez a chefia esteja mais satisfeita. Ela é um público importante, mas não deveria ser o único.

Prudência antes da automação

A prudência entra justamente aí. Antes de automatizar uma resposta, precisamos decidir quem verifica sua correção, quem responde por um erro e como a pessoa consegue falar com alguém quando a conversa automática não resolve. Antes de pedir uma campanha, vale perguntar qual problema público ela pretende enfrentar.

Esse trabalho exige tempo, repertório e disposição para contrariar a pressa. Também exige aceitar que uma publicação a menos pode ser uma decisão melhor do que mais uma mensagem bonita, perfeitamente diagramada e completamente dispensável.

Não proponho escolher entre entusiasmo e medo. Proponho experimentar com critérios, avaliar consequências e preservar a responsabilidade por aquilo que colocamos no mundo.

Para mim, usar IA com inteligência na comunicação pública é trocar parte do esforço de produzir pela dedicação de compreender. A máquina pode entrar no processo. O cidadão não pode sair dele.

Sem essa premeditação, corremos o risco de chegar à conclusão mais constrangedora dessa história:

Talvez tenhamos desejado uma inteligência artificial, mas encontramos a estupidez humana.

A novidade é que agora ela consegue cumprir o calendário editorial.


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