Inovação pública · Inteligência artificial
Quando IA começa a virar sinônimo de inovação?
Desde que mergulhei profissionalmente no mundo da inovação, lembro que um de meus primeiros “novos hábitos” foi passar a consumir a curadoria de inovação mantida pela Biblioteca da Justiça Federal de São Paulo. Um serviço valiosíssimo ao ecossistema de inovação. Se você não conhece, clica aqui porque o material é bom.
Desde 2019, a página reúne periodicamente notícias relacionadas à inovação. E, olhando as edições ao longo do tempo, uma coisa me chamou a atenção. A sensação era clara: a Inteligência Artificial aparecia cada vez mais.
Resolvi olhar isso com um pouco mais de cuidado. A análise se concentrou exclusivamente na seção “Notícias” da curadoria e consistia numa pergunta simples: entre as notícias selecionadas como relevantes para quem acompanha inovação, quantas tratavam diretamente de Inteligência Artificial?
O gráfico abaixo conta uma história interessante.
No início da série, a IA era apenas um dos vários assuntos associados à inovação. Ela já estava presente. Em 2020, por exemplo, o Judiciário brasileiro já discutia ética, transparência e governança de Inteligência Artificial por meio da Resolução CNJ nº 332/2020. Mas sua presença na curadoria era periférica.
O ponto de inflexão aparece em 2023 e veio quase que como uma consequência do lançamento do ChatGPT, no final de 2022. O evento transformou uma tecnologia até então relativamente especializada em uma experiência acessível a milhões de pessoas. E isso aparece rapidamente na agenda de inovação.
Em março de 2023, uma mesma edição da curadoria já reunia assuntos como GPT-4, ChatGPT, regulamentação, ferramentas e aplicações de Inteligência Artificial. A IA deixava ali de ser apenas um assunto dentro da inovação. Começava a ocupar o centro da conversa.
Depois do choque, veio a normalização
Em 2024 e 2025, o fenômeno muda de natureza, já não se fala apenas da novidade tecnológica. Passam a ganhar espaço questões como governança, regulação, uso no Judiciário, impactos organizacionais e aplicações profissionais.
É um movimento esperado quando uma tecnologia amadurece: primeiro perguntamos “o que é isso?”; depois, “o que podemos fazer com isso?”; por fim, “como devemos conviver com isso?”
Mas 2026 traz algo que considero ainda mais interessante. Em uma das últimas edições da curadoria, cinco das seis notícias selecionadas eram relacionadas à IA.
E há um detalhe simbólico. A curadoria que antes se apresentava como “Prospecção sobre Inovação” passou a utilizar a denominação “Prospecção sobre Inovação e IA”. Talvez seja apenas uma adequação editorial à importância que o tema adquiriu. Mas talvez seja também um pequeno sinal de algo maior.
Estamos confundindo inovação com IA?
É aqui que o gráfico me interessa mais. Ele não demonstra que a inovação no setor público passou a ser predominantemente IA. Os dados não permitem essa conclusão.
O que eles mostram é outra coisa: dentro dessa curadoria, a participação da IA no discurso sobre inovação cresceu de maneira muito expressiva. Essa distinção é importante.
Porque inovação não é uma tecnologia.
- Um formulário redesenhado pode ser inovação.
- Uma comunicação que muda o comportamento do usuário pode ser inovação.
- Uma alteração de fluxo que elimina uma etapa desnecessária pode ser inovação.
- Uma nova forma de ouvir o cidadão pode ser inovação.
- Uma intervenção baseada em ciência comportamental pode ser inovação.
E, pasmem, nenhuma delas precisa de Inteligência Artificial.
IA é uma tecnologia extraordinariamente poderosa. Provavelmente será componente importante de inúmeras inovações nos próximos anos. Mas IA e inovação não são sinônimos.
Para quem trabalha em laboratórios de inovação, talvez exista aqui um risco especialmente relevante. Quando uma tecnologia concentra atenção, orçamento, eventos, capacitações e discurso institucional, começamos naturalmente a enxergar os problemas através dela.
E a pergunta pode mudar silenciosamente de:
“Qual é a melhor maneira de resolver este problema?”para:
“Como podemos usar IA para resolver este problema?”
Parece uma diferença pequena. Não é. Enquanto na primeira pergunta, começamos pelo problema, na segunda, começamos pela solução.
Talvez o gráfico da curadoria da JFSP seja apenas o retrato de uma tecnologia transformadora ocupando merecidamente espaço na agenda. Mas ele também deixa uma boa pergunta para quem trabalha com inovação pública:
Quando a IA começa a virar sinônimo de inovação?
E, principalmente: o que deixamos de enxergar quando isso acontece?




